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Desconheço a autoria da Imagem

Na minha memória – já tão congestionada –
e no meu coração – tão cheio de marcas e poços –
você ocupa um dos lugares mais bonitos.
[Caio Fernando Abreu]

Decantar a noite
em doces lamentos,
depois, unir o que restou,
numa mistura de luz.

Sorver o néctar da madrugada
e estancar as lágrimas,
quando o primeiro raio de sol
despontar no horizonte.

Dançar com as sombras e maldizer
os poetas que cantam o amor.
Despertar do sonho, ainda acordada,
e dissecar qualquer resquício de esperança
que ousar brotar do meio do peito.

Silenciar o corpo para o tormento da dor.
Matar a fome com a lembrança de um beijo.
Compreender o que sobrou da vida,
depois de ter amado como eu te amei.

Nasceu-me um tempo…

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Todos os dias quando acordo,
Não tenho mais o tempo que passou
Mas tenho muito tempo
Temos todo o tempo do mundo.
[Renato Russo]

Nasceu-me um tempo…
Ele não chorou, quando o peguei no colo e olhei seus olhos de nunca mais. Seu semblante de tranquilidade, por um momento, trouxe-me paz. Depois, senti que tinha no colo o peso do mundo de novo. Era muita responsabilidade, esta, de ninar o tempo. Cantei-lhe algumas de minhas canções favoritas e satisfiz a sua fome de ser. 

Nasceu-me um tempo…
E de tão novo, não tinha asas, nem conseguia se equilibrar entre um passo e outro dos ponteiros. Tropeçava, tímido, e sorria de seu próprio embaraço. Tão desajeitado! É que se leva muito tempo para caminhar com graça, até correr, sem medo de tropeçar de novo e esfolar a cara. O tempo, astucioso, aprende rápido. 

Mas, então, me nasceu um tempo…
O tempo de não buscar por ninguém, de não esperar por nada, de não chorar por amor, de não se render a pirraças, de não exercitar o orgulho, nem o temível egoísmo. Nasceu-me assim, numa manhã atípica de primavera, com cheiro de azul e transparência na cor dos olhos. Um tempo todo cheio de um vazio imenso, quiçá, para que caiba qualquer coisa dentro. 

Ressignificâncias…

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Desconheço a autoria da Imagem.

nuvens rondam gargalhando sombras
o sol é mormaço feito de pó
[Nei Duclós]

Que não houvesse um nome com o propósito de definir ou sujeitar: apenas verbo, como processo e movimento de ser. E quando eu dissesse ‘amor’, um raio fulminante cortaria o céu da minha razão: me devolveria ao chão do jeito mais brusco. É que a palavra ‘asa’ , há tempos, está em desuso.

Que me fosse concedido o dom de ressignificar nomes, eu faria do teu o meu lar; ou um labirinto para me perder, até me encontrar. Se tivesse um dom assim, faria da palavra ‘saudade’ uma fissura na íris do tempo, proporia um tratado para a cegueira de sentir tudo aquilo que acabou.

Da palavra ‘azul’ eu faria um chá, que teria um sabor levemente adocicado, algo que lembrasse um beijo, mas não aquele de despedida. Por certo, me sentaria aos pés de uma montanha e encararia o riso irônico de uma árvore, que acabou de perder todas as suas folhas para o vento. Teríamos muito o que chorar.

 

Era outubro…

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Apenas quem está perdido pode ser encontrado.
[Luís Santos]

Deixei-me afetar. Por completo, fui tomada de um sentimento de despertencimento. Fui me afastando, lentamente, para o lado oposto de mim, que espera algo de ti. Depois, remei o mais rápido que pude, sem olhar para trás. O mar sempre fica agitado demais, quando fugimos de perguntas que não sabemos a resposta.

Só percebi, muito depois, que já havia naufragado. O mar esboçava a paisagem chorando, como se, por piedade, me quisesse em terra firme de novo. Ainda me lembro da fragilidade das árvores a florescerem, com violência, o futuro dos frutos. “Ninguém está livre de sentir…” Esse foi o meu último pensamento, antes de ser engolida pela maré, num único fôlego. Era outubro, mês em que se afogam as esperanças. 

Ao amor…

Os sentimentos que a pele carrega nunca padecem do esquecimento absoluto. Esquecer é impreciso… É quase como dar um passo rumo ao desconhecido que é a liberdade de ser, sem ter pertencido a nada ou a ninguém.

Doer-se é verbo líquido. Diluir-se ao som de uma lembrança é resgatar a coragem de dentro dos olhos e sangrar de mansinho: lágrimas, desejos e sonhos. Depois, lançar-se ao fogo, por ter a certeza de não haver mais nada o que queimar. 

Olha, naquele canto escuro a palavra amor se refaz do grito. Cavo um buraco e enterro as minhas mãos… Minhas pequenas mãos, tão acostumadas a costurar feridas, a abdicar teu corpo por covardia… Mas, diga-me uma palavra, uma única palavra, e cairei de joelhos aos teus pés.

Não vai dizer…

(…) impossível é descerrar a madrugada
cujo caos se cobre com uma mortalha intangível
pela vontade de ser voz. [João Costa]

Não vai dizer que não falei do medo da noite que me habita, que não contei que o vento me faz perceber que as coisas ganham vida, sem vida terem. Não me diz que não contei dos meus medos mais primitivos, que não implorei por colo, que não me senti sozinha. A escuridão, às vezes, me atrai, mas é quando insisto em nomear as sombras que me preenchem, no silêncio das madrugadas. Não vai dizer que não te contei do choro, aquele soluço estancado, aquela dor que corta o peito, que arrebenta as cordas vocais, que me sufoca… me sufoca…

Tratado das insignificâncias…

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Nós nunca nos realizamos.
Somos dois abismos
– um poço fitando o céu.
[Fernando Pessoa]

Acordei e tinha olhos, olhos que queriam ver aquilo que eu não quero. Sentei-me na borda do abismo e admirei a vista. Alguns pássaros cansados demoravam em seus voos, como se quisessem apenas desistir e abandonar o pequeno corpo à queda. Sorri ao perceber que, mesmo assim, eles se sustentavam no ar.  

Depois tentei lembrar o meu nome. Era muito longe essa ideia de eu ter um nome. Desde quando ninguém o pronunciava? Também não conseguiria responder a isso, porque na solidão, o tempo atravessa um deserto em chamas, difícil demais de compreender a abstração do tempo, quando o próprio tempo já não quer ser contado. O tempo também é subjetivo, dentro do seu papel de objetividade…

Avistei um rio, na margem oposta ao abismo, mas me dei conta de que o barulho de sua trajetória se chocando com as pedras vinha de dentro de mim. Atentei-me ao fato de que, há muito, me restava apenas a sequidão dos dias. Como, então, poderia um rio me correr por dentro? Que espécie de peixes eu abrigava? Do que eles se alimentavam? De novo, eu não soube responder.

Na verdade, creio que sei de poucas coisas nessa vida. Sei, por exemplo, que o amor é sentimento intransigente, embora se vista de uma compreensão quase santa. E que o tempo presente não existe, além da nossa imaginação, porque estamos – invariavelmente – submersos no passado ou tentando alcançar o que virá. Sei também da singularidade do caos, quando se instala no interior de cada pessoa e o quanto isso é assustadoramente bonito também. E da leveza da alma, quando somos amados por aquele que amamos. 

De resto, quase nada importa tanto. A sabedoria consiste em permanecer no espanto, mesmo quando este já não encanta o suficiente. Inventar contentamentos e se surpreender com o que não é mais novidade faz parte do jogo da vida. O equívoco, talvez, seja fingir que não percebemos isso. 

O que eu faço?

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E há em mim todo um silêncio
a chamar por ti.
Não o ouves?
Não me sentes?
[Rosalia Conceição Reis]

Amor, o que eu faço, não sei mais a direção que devo seguir. Sem ter você por perto, o vazio é o lugar mais seguro, é onde eu me deixo ficar, em silêncio e de mãos dadas com a saudade. (Num delírio, imagino suas mãos tecendo poemas em meu corpo, como se essa fosse a única forma de obter de mim um diálogo mais puro, talvez íntimo).

(…) Certa vez, li algo sobre digitais que gravam no corpo sílabas de pétalas. Vermelhas ou amarelas? Tanto faz. Só sei que sinto falta das suas mãos cravando asas em meu corpo, desvendando caminhos desconhecidos, essa minha geografia desconexa, nomeando estados e sentidos. Mas você foi embora e, depois, inventou esse mar que me corre dos olhos, noite e dia. Eu sinto falta do seu sorriso…

Amor, o que eu faço, se não consigo desligar meu coração? Eu sinto frio se o seu colo não me acolhe, se o seu beijo não me nutre, se não tenho mais as suas mãos. Amor…? Se ainda está aí, me dê um pequeno sinal. Mande uma carta, sem selo, um beijo, ou uma canção de amor…

Amor, como hei de viver sem você?
Perdoe-me, mas eu não sei… eu não sei.

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Jan Saudek

Para ouvir…

É primavera… te amo.
[Tim Maia]

E de novo é outubro. Quem me dera regressar ao tempo em que não nomeava os meses, não compreendia as estações do ano e as horas eram sinais que eu não precisava ler. Mastigo a matéria orgânica dos sonhos e continuo faminta. Mas de que sou feita? Sentimentos sem pátria: É tudo o que eu sou, tudo o que tenho! Evito o silêncio, porque ele tem a sua voz.

E aqui estou eu, tentando traduzir o indizível. Saudade é um mecanismo informe. Sobrevivemos por teimosia, apenas. Arrastamo-nos, junto aos dias, carregando – bravamente – a sombra de um sorriso que se perdeu há tempos… Trago o peito embrulhado em angústia, os olhos coagulados de espera, mas era tudo previsível, não era? Você sabia, eu também… Sabíamos?

Por certo, viveremos perdidos na estrofe de algum poema, na teimosia nata de algum poeta, que canta o amor sem se importar com as feridas, ainda abertas. Mas não contarei a ninguém sobre o dia em que você foi embora, deixando atrás de si uma porta semiaberta e um coração destroçado: o meu. Algumas coisas são indizíveis, ainda que virem pó.  

Cuide bem…

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Desconheço a autoria da Imagem

esse é apenas
um dos capítulos do livro
em que tudo se lê
e nada está escrito.
[Albano Martins]

Não se esqueça de regar
aquelas flores que me deu,
nem de guardar o arquivo
dos poemas que me escreveu.

Trate bem nossas memórias,
não exclua mais nenhuma
(nem aquelas ditas ‘feias’,
afague-as, uma a uma).

Sobre as fotografias
– as quais lhe presenteei –
são toda a minha geografia,
imagem do quanto te desejei…

Cuide bem do seu mundo, amor,
já que o meu não existe mais.
Depois de você, nada, além da dor.
Depois de você, sonhar… jamais!